Wednesday, April 14, 2010

Quarentena

Há exatamente 64 dias eu dei meu último beijo. E nem foi assim um beeeeeeeeeijo. Foi mais uma bitoquinha, um selinho, uma representação do adeus a um relacionamento que já havia acabado.
E assim, em silêncio, sem falar nada, eu vim prá cá, ele ficou lá, e nunca mais nos falamos.

Então uma voz começou a falar comigo: "Lembra em 2008 quando você ficou meses sem beijar, que você ia muito bem na faculdade, estava magrinha, não tinha problemas de dinheiro, seu coração quase não doía e você controlava melhor sua vida? Então! Eu acho que é culpa do beijo."
Neste dia decidi que não ia mais beijar. Não, senhor. Se é prá eu beijar dessa forma novamente, nunca mais quero beijar.
Nunca, também não.
"Podemos fazer um acordo", disse a voz.
Foi quando tive a feliz idéia de ficar sem beijar por 40 dias.

E começou a QuarenTinny.
A primeira semana foi estranha, porque eu ao mesmo tempo temia que o mocinho do beijo de adeus pudesse aparecer, mas por dentro eu SABIA que não. E eu nem tinha um plano b.

Eu tinha até fiscais para me ajudar nesse período. Aqueles para quem eu me reportava, com quem eu desabafava, embora nem eles mesmos saibam a razão pela qual foram escolhidos.

Além de não beijar, eu também precisava evitar beber ou sair, mesmo porque estas últimas são incompatíveis com a possibilidade de sucesso da primeira.
Então saí poucas vezes, bebi pouco.
Nem foi tão difícil dizer não para os sujeitos que queriam sabotar meu plano.
Até porque nem apareceu ninguém assiiiim... sabe? Ah, vocês sabem!

Lembro-me do último dia. O infeliz caiu justo num domingo. UM DOMINGO?
E agora? Eu posso beijar no dia 40? Se eu não beijar no dia 40 eu vou ter que esperar mais, porque onde vou arranjar alguém prá beijar durante a semana que eu trabalho até as 10 da noite e tenho aula no dia seguinte às 7:30?
Tá. Só vou beijar se aparecer alguém assiiiim... sabe?
Pois é. Não apareceu ninguém assiiiim... sabe?

Quando a gente não beija, a gente pensa muito em muitas coisas, e eu acabei pensando que seria legal criar algo semelhante ao Estado de Defesa. Este, agora, com 30 dias, com pequenas ressalvas, mas não grandes impedimentos. Resumindo, eu não precisaria me segurar caso não quisesse.

Ontem foi o dia do beijo. Terminei o dia do beijo sem beijo, pelo 63º dia consecutivo. Para mim foi mais um dia do não beijo.
E eu pergunto: quanto eu sou diretora, quanto sou atriz principal e quanto sou coadjuvante nessa escolha? A quarentena, que virou sessentena, que tá quase virando setentena, daqui a pouco morre, né?
Espero que ela não tenha criado vida própria.

A verdade é que esse tempo todo sem beijar me deixou com medo de beijar. Eu, uma véia coroca de guerra com 31 anos de praia, fiquei com medo de beijar. Da sensação que o beijo proporciona, principalmente o primeiro... do segundo dia. Da conexão. Das borboletas no estômago. Medo de gostar, de me apegar, de novamente beijar como naquele dia do beijo de adeus.

E agora? Como sair dessa?
Beijar qualquer um só para sair do jejum?
Sentar e esperar?

É. Sinto cheiro de Centena no ar.

2 comments:

  1. Sinto-me honrado de ter ajudado nesse periodo que antes dificl, mas que agora parece simples, vc conseguiu lidar com isso, algumas vezes até fui grosso com vc, para q vc se focasse na sua meta, creio q vc conseguiu e está conseguindo.
    Belo texto
    Gostei da descrição de tudo.

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  2. seek and you shall find.. for that kiss we once shared shouldn't have made you that scared.

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